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Mito Supermulher Negra. A: Poesia

Escaravelho

Ecos de uma boca, de uma língua, de um corpo mais claro que o meu nomeando-me de

Escaravelho – es-ca-ra-ve-lho – escaravelho

Pois eu, escura que nem o solo confundido com a noite

Escura que nem o escaravelho negro de carapaça inquebrável

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Com os cabelos densos, encaracolados, crespos tiranos

NEGRA

PRETA PRETA

DE-COR DE-COR DE-COR

Aquela com um corpo oposto à da branca, ou mulata, mestiça, cigana, cor de oliveira

Aquela com o corpo de tons castanhos como o tronco das árvores

Ou o solo onde a vida se espalha por entre as plantas, insetos

Onde pássaros vêm dos céus se saciar

Sou escura como as grutas vividas pelos nossos antepassados

Escura que nem o escaravelho de carapaça inquebrável

A fisionomia é ela resistente?

História conta a história da escravidão dos corpos negros

História conta a escravidão como a salvação das criaturas incivilizadas

Empobrecidas energúmenos escravos

Da ignorância, da ignorância, da ignorância do saber do ocidente

Dos trajes, do ouro, das comodidades,

Ignorância do Deus cristão

Ignorância das praticas da salve-Europa

Notados foram os negros pela sua forca e o seu corpo resistente

Roubados

 

Pés descalços anafados

Os pés secos de pele desgastos

Calos arranhados com história dos pretos velhos

Pés de um ‘outro

Aquele outro que não existe fora da dicotomia

 

Criança que é negra demais não saberia do peso da cor senão a confusão

Criança que é negra demais de face para o vento

Dançando nos céus por entre as nuvens

Naquela pureza de inocência de não saber a bênção

De sua negritude

Mas a mim em criança apropriaram-me de pálida

Pálida nas danças

Pálida no falar

Pálida no ser e estar

Pálida até no coração

 

A raiva disfarçada de um sorriso tímido rasgara-se

A raiva em crescendo culminando-se nos choros nas noites invernais

A raiva se hibernando nas linhas que escrevera em guardanapos

 

A mãe tentaria disseminar os gestos de palidez

Proferindo mitos e guias: “A mulher negra

A negra se cair numa espécie de abismo não levantará?

Matriarca: prontamente

A negra, essa carrega a raiz da memória erguida e vigorante

Matriarca: orgulho, mas humildade sim

A negra, essa atirada no fundo do santo Gral dos homens

A negra, corrupta na pele e no sexo

A negra, oprimida até na casa

Matriarca: uma mulher de valor-composta-guerreira

Matriarca: evidentemente, a cor não perdoa

A negra, essa, agâmica

Matriarca: silêncio

A negra, essa, pecado

A negra, essa, promiscua

Desviante na sua natureza

Matriarca: silêncio

Negra, essa amante de corpos femininos, perdendo-se nas ancas de corpos masculinos ou transgéneros ou assexuais

Matriarca: silencia

 

A voz assassinada

A voz assassina

 

 

Orquídeas pretas num campo imenso

Desflorando-se entre experiencias, entre vidas, entre corpos

Geração minha liberta-te

Geração antes da minha desoprime-te

 

Mãe, deixa esse Deus falso pálido e opressor

Corre para o solo vermelho onde nasceste

Corre para as mitologias de africa

Corre para a liberdade do ser primordial, da béstia infinita

 

O meu corpo demora todos os dias

Também a mente emancipa apressando-se para os sonhos absurdos

De ser desprendido

 

Photos by Kubo Ivancik